RECEPÇÃO

terça-feira, 30 de março de 2010

Consciência II

O vazio completava o quarto. Ele estava presente naquele porta retrato, agora quebrado, com a foto ao meio rasgada, estava presente no telefone mudo e naquele mural agora vazio. Ela precisava conversar, precisava fazer algo diferente, o vazio, que já havia dominado o quarto, logo mais iria pegá-la também, e ela jurou que jamais se sentiria assim.
Correu para o banheiro e lá começou a se olhar no espelho. Estava na hora de conversar com a Consciência de novo? Ela passou a ter medo dela mesma, da sua imagem relfletida. Por quê? Por que ela dizia tudo que não desejava ouvir.
- Oi. - O reflexo no espelho disse, seco, sem vontade de conversar.
- Oi. - Ela não fazia questão nenhuma de trazer qualquer animação à conversa, ela precisava de alguma espécie milagrosa de ajuda, mas aquele rosto seco, rígido refletido, não fazia questão de ajudar em nada. Ou ajudava?
- Por quê você decidiu falar consigo mesma de novo? Fica esperta, daqui a pouco vão te chamar de louca.
- Não tem ninguém mais no meu quarto, ninguém sabe que eu falo, em tese, sozinha. - "Ou será que sabem?" ela cogitou a possibilidade.- Ah.. Esqueci. Tem alguém sim no meu quarto.
- Quem? - A feição do reflexo se transformou num anseio de curiosidade extrema.
- O Vazio.
- Ah, me poupe! - Logo ela havia se revoltado de novo. - Já perdi a conta de quantas vezes você veio reclamar de vazio comigo, você só sente esse vazio porque você quer. Esse sufoco que você passa no seu quarto, vendo aquele porta retrato quebrado, o telefone mudo e o mural vazio, você mesma causou tudo isso, bem feito, agora pare de me importunar, vá repensar seus atos e depois que você aceitar tudo isso, aí sim dá pra gente conversar.

A garota ficara extasiada com tantas... Verdades? Sim, eram verdades, maldita Consciência, mas ainda sim tinha algo a colocar:
- Mas o porta retraro é vazio. O mural é vazio. o Telefone é vazio, cadê o conteúdo de tudo isso? Se perdeu. E como? Não sei. - Nem ela sabia o que estava argumentando mais.
- De novo: Você criou esse vazio. Você quebrou o porta retraro e rasgou a foto porquê quis; arrancou os bilhetes, fotos e tudo mais do mural porquê você quis; e o telefone... Você não quis atender na época em que ele ainda tocava. Acorda, a culpa disso tudo é sua.

Se sentindo humilhada por ela mesma, a menina decidiu ir embora, mas o reflexo, ainda estava na sua cabeça, e conversava com ela silensiosamente:
- Só mais uma coisa, pare de sonhar com o que você anda sonhando ultimamente. Você já teve uma péssima experiência com relação a sonhos e conseguiu atingir um nível crítico e preocupante de ilusão, e você conseguiu até ME afetar com isso, é só uma dica, e eu digo isso porque eu ainda SOU você, e se você não está bem, por mais que eu me esforce, não consigo ficar bem também.

A garota estava imaginando porquê resolveu falar com sua Consciência de novo, ela só lhe fazia mal, porque dizia todas as verdades que ela tentara ocultar com o vazio, dentro da gaveta, nas páginas perdidas de diário, mas ainda sim, ela se atreveria a sonhar de novo, com o mesmo problema de sempre, mesmo correndo os piores riscos. Ela preferia passar horas em um mundo fantasioso ao invés de enfrentar a terrível realidade que ela mesmo criara. Problema.

- J.

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