RECEPÇÃO

terça-feira, 27 de julho de 2010

Corredor de Hotel

     Enquanto subia os andares no elevador deteriorado daquele antigo hotel, pensava nas palavras que diria à ele. Ironicamente, não estava nem conseguindo definir meus sentimentos, a busca pelas frases corretas, na ordem certa, era uma tarefa complicada no contexto em que me encontrava.
     Quando finalmente me vi em frente ao corredor silencioso, cheio de quartos, hesitei. Deveria continuar? Porém, antes de me conceder qualquer tipo de dúvida, lembrei que nunca havia agido por impulso antes e tinha uma certa vontade ser levada pela insanidade da situação. Entretanto, bem que eu poderia ter escolhido uma situação menos complexa; meu Orgulho já estava declarando uma guerra interna contra minhas indefesas Emoções. Coitadas. Estavam sentindo pela primeira vez um gostinho de vitória...
     Procurei avidamente em minha bolsa pelo papel que continha o número do quarto. Minhas mãos tremiam, tinha evitado pensar nisso até o presente momento, no entanto, era inevitável agora. O que eu faria? Caminhei relutante pelo corredor, procurando pelo respectivo quarto. Quando estava em frente à porta do dormitório 704, congelei. Pude sentir a adrenalina ao mesmo tempo que minha feição passava do medo para a inexpressão. Virei-me, sentindo aquelas paredes emboloradas nas minhas costas, sentei-me no chão, e lá fiquei. Sem ação.
     Entretanto, ainda podia ouvir. Consegui escutar a televisão ligada no quarto vizinho e a criança chorando na porta à frente e assim pude deleitar-me com esses sons, enquanto meus músculos continuavam em greve. Nesse momento, um único pensamento dominou minha mente: Correr. Sair correndo pelo corredor, pela rua, enquanto destruía o bilhete freneticamente com o endereço, para que não voltasse mais. Estaria meu Orgulho ganhando? Provavelmente sim.
     Estava quase acatando ao toque de recolher que meu subconsciente gritava, quando escutei um rangido e meu coração parou. Olhei para o lado, desejando, esperando não ver o que aquele barulho denunciava. Súplicas mais inúteis não poderiam existir. Ele, o alvo de todo aquele meu drama, surgiu do quarto e espantou-se com a minha presença ali, sentada em uma provável mudança de cores - a antiga palidez deu lugar ao vermelho da vergonha.
      Ambos ficamos quietos por um tempo. É claro que eu não quebraria o silêncio. Meu corpo em estado de alerta, ordenando que eu pulasse da janela, saísse correndo, qualquer ação além da paralisação era válida.
      A voz dele decidiu ecoar naquele corredor silencioso, no entanto, o tom que veio com elas, não era severo, era curiosidade: "Hm... Você? O que você tá fazendo aqui?"
      Custou-me certo esforço para responder.
      "Eu... Eu queria.... Te ver." As palavras saíram num tom deplorável, denunciado todo o medo, a incerteza, a vontade de fugir que eu sentia naquele momento. Não me levantei, era pedir demais à minha mente transtornada.
      "Por quê? Pensei que você tinha dito que nunca mais queria me ver..." Nem consigo descrever o corte que tais palavras proporcionaram em minha consciência.
      "Ainda é difícil engolir as palavras que você me disse há alguns dias... Mas por alguma estranha razão, eu quis vir aqui, te ver."
      "Eu não me arrependo do que eu disse. Você precisava ouvir aquilo e entender que eu não sou o que você quer."
      "É que talvez..." - Suspirei, desviei o olhar - "... Eu entendi o que você quis dizer dizendo-me tais palavras, listando meus defeitos. Talvez, eu era a errada. Mas..." Não aguentei. Parei, senti meus olhos úmidos.
      "Mas...? Eu não tenho o dia todo." Sentenciou.
      "Ah, me dá um tempo. Você não percebe o quão difícil isso é pra mim? Vir até aqui, ter essa conversa com você...?"  De repente eu estava brava. Comecei a odiar profundamente toda aquela situação. "... Talvez, eu era a errada, você tem completa razão sobre tudo o que você disse sobre mim. Mas você errou em uma coisa só. E acho que eu estou nesse drama todo só pra te falar o que é."
     "E o que é?" Ele me olhou impaciente e minha raiva com isso só subiu. Aquele desinteresse me queimava por dentro.
      Não me contive, gritei a resposta: "VOCÊ! Eu quero você! Você errou nisso." Meus olhos se voltaram para encontrar os dele, enquanto choravam lágrimas de tristeza e raiva. Minha expressão estava, sem dúvida, furiosa. E depois de presenciar sua reação de espanto, levantei-me e saí andando.
      De que adiantava correr agora? Meu Orgulho havia sido bombardeado cruelmente. Quando cheguei à porta do elevador, concluí, sem olhar para trás: "Acho que eu vim aqui, mais para honrar meus sentimentos do que para ver-te. Você estava errado, e ainda está com relação à isso." Nisso, estava entrando no elevador, para ir embora, dessa vez certa que ia queimar o endereço, quando senti algo puxando-me e quando notei, ele estava me envolvendo pela cintura e nossos corpos estavam tão juntos, que pude sentir as batidas de seu coração. Estavam aceleradas, talvez mais que as minhas.
      "Acho que era o que eu precisava ouvir para desistir do meu orgulho também" Disse-me e lá no meio daquele corredor de hotel, beijou-me apaixonadamente, enquanto me segurava como se nunca mais fosse me deixar ir. Meu Orgulho havia perdido a guerra, mas isso não o impedia de sorrir, deslumbrado com a força do inimigo.

- J.

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