Estávamos conversando à beira do precipício. Havia uma vista bonita dali, o crepúsculo e algumas estrelas decoravam o céu. No entanto, a aura dele estava perturbada; a passividade da paisagem contrastava com seu olhar amedrontado e úmido. Conforme a conversa corria, seu humor ia mudando drasticamente. Ficava com raiva, dizia grosserias, ficava triste e começava a tremer, seu olhar se perdia, resquícios de lágrima apareciam, embora não caíam.
Não estávamos conversando nada de muito importante, de fato. Estávamos apenas refletindo sobre a vida, sobre alguns sentimentos, alguns acontecimentos talvez. Entretanto, as oscilações iam se acentuando. Ele se descontrolava cada vez mais, seu corpo denunciava seu estado interior. Cada problema comentado era intensificado, cada dor anunciada abria todas as cicatrizes dificilmente fechadas, cada alegria contada aos risos era diminuída, como se não tivesse importância... Algo estava errado.
Ao fim, houve uma explosão. Ele gritou de pavor, se desequilibrou e caiu do precipício. Por um momento, fechou os olhos e esperou pela sua morte, mas sentia-se vivo ainda. Eu estava segurando-o, não o deixaria cair. Quando nossos olhares se encontraram, lágrimas corriam de seu rosto, ao mesmo tempo que suplicava para largá-lo. Dizia que não, que não o soltaria, no entanto, não poderia aguentá-lo se ele não fizesse esforço para subir. Comecei a chorar, sua mão escorregava, não conseguiria salvá-lo. Gritava para que agarrasse meu braço, em meio aos meus soluços de raiva e desesperançados. Minha mão tremia, desviei o olhar para não ter a cena que se seguiria nas minhas memórias, mas senti suas mãos no meu braço e o puxei para cima com toda minha força.
Uma vez sob o mesmo chão de novo, eu e ele continuamos chorando, olhei para o céu, agora totalmente estrelado. Não dissemos nada por um momento, depois o abracei, mesmo não sabendo se era o melhor a ser feito. Ele estava tremendo e hesitou em corresponder, mas o fez. Perguntou porquê o havia salvado, porquê não o havia deixado cair. Olhei para ele com uma expressão séria, mas desviei o rosto para o abismo e disse: "Por quê é o que os amigos fazem. Mas eu só consegui te ajudar porque você aceitou a ajuda. Caso contrário, não teria o que fazer."
- J.
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